Joana Travessas

Postado 2016/11/01

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Fazia pouco tempo que tinha tido conhecimento dos Amigos de Inharrime, quando decidi apadrinhar o meu primeiro afilhado Anibal em 2005, tinha ele 4 anos. 

 

Mais de 10 anos passados e a decisão de partir até Moçambique e conhecer o Centro Laura Vicunha (CLV), surgiu de um dia para o outro.

Aníbal, faz parte de uma família com pai, mãe, avó e irmãos, que na altura do apadrinhamento tinham muitas carências económicas e viviam com dificuldades.

Hoje é um menino com 14 anos, que está prestes a completar o 9º ano e com a vontade de se tornar electricista.

Reencontrei-o na semana em que cheguei ao CLV juntamente com a sua mãe a D. Lurdes. Uma criança reservada e tímida que reconheci das fotos que ia recebendo via email em Portugal.

Combinei com a mãe que gostaria de conhecer o lugar onde moravam e perguntei a Aníbal que prenda gostaria de ter para o aniversário, já passado em Junho. A resposta foi silenciosa, mas acredito que o pensamento dele já tinha desenhado o que desejava.

Num dia sem aulas, passei pela Padaria do CLV e reconheci Aníbal sentado com os amigos, já vestido com a roupa nova oferecida pela madrinha. Fui ter com ele mas a timidez não deixava que houvesse grandes palavras.

Quando vinha embora, senti que alguém corria atrás e deparei com o meu afilhado junto a mim a acompanhar-me. Em silêncio.

Perguntei-lhe: “Então, já decidiste que prenda queres?”

“Uma bicicleta”, sussurrou ele quase inaudível. Uma bicicleta! “Uma bicicleta então será!” Um sorriso e uns pequenos saltos de alegria surgiram neste menino reservado e pouco dado a mostrar as suas emoções.

No dia combinado para conhecer a sua casa, esperava-me já manhã cedo junto da entrada do Centro com a sua nova bicicleta.

Fomos pela estrada, para logo entrarmos no bairro de Nhancolola onde morava com a família.

Os bairros nas zonas rurais de Moçambique são terrenos onde as palhotas e algumas casas de tijolo e cimento se organizam por terrenos pertencentes a cada família. Podem ter uma machamba – horta, e algumas têm jardins bem arranjados com vedações e canteiros de flores.

 

 

Andámos cerca de 30min até encontrarmos a casa, ou mais correctamente as casas, onde Aníbal vive com a família. Um terreno grande com machamba onde várias palhotas servem um determinado fim: quartos, cozinha, casa de banho e armazém.

São 8h da manhã e os tachos estão ao lume, numa fogueira feita no exterior mas também no interior da cozinha.

Têm uma pequena mesa posta com uma toalha de renda debaixo de uma mangueira à sombra e com cadeiras ao redor para nos sentarmos. Mas antes disso o irmão de Aníbal oferece-se para trepar ao coqueiro e cortar alguns cocos para bebermos e depois comermos. Começam por nos trazer um balde com água e uma toalha, também de renda, para lavarmos e secarmos as mãos. Percebe-se que tudo está a ser feito para um dia especial.

Na casa que serve de cozinha sai fumo por uma abertura e lá dentro está um tacho ao lume, numa fogueira também feita no chão. Percebo que aquela comida está a ser feita para nós.

Começamos pelo “mata bicho”, o nosso pequeno almoço, mas neste caso servem-nos o que estão a cozinha: cabrito estufado. 

 

Apesar de ser ainda de manhã, o cabrito sabe-me maravilhosamente bem! Segue-se uma visita à machamba para irmos buscar a sobremesa: papaias apanhadas directamente da árvore pelo meu afilhado, exímio trepador, que facilmente nos atira umas quantas frutas.

 

 

São cerca das 11h, quando é servido o almoço! Juntam-se a nós alguns vizinhos que vêm conhecer a madrinha de Portugal.

Antes da despedida ainda tenho tempo para aprender a fazer o “entrançado” nas folhas de palmeira, usado para a cobertura das palhotas e vedações, uma maneira simples, e que nós por cá chamaríamos de “eco”, de reutilizar o que a Mãe Terra nos dá e que aqui, nesta terra africana, sem saberem, tão bem protegem!

 

Foi uma viagem de conhecimento, amizades, partilha e encontros. Mas sei que pelo caminho “apadrinhei” mais do que isso!

Kanimambo! (“Obrigada” em moçambicano)

 

 

 

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