Rita Leitão

Postado 2016/12/02

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O meu sonho de ir a África já existia há muito tempo. Contudo, bem sabia que não era necessário ir a um país africano para crescer o bichinho do voluntariado e de fazer o bem pelo bem, nem tão pouco para perceber que o mundo é desenhado assim: o pouco de uns é o muito de outros. Já o dizia um grande escritor português, Fernando Pessoa.

Assim que conheci Inharrime (o facebook nunca me sugeriu uma página que me fizesse tão feliz) senti que era por ali, senti que esta seria a minha casa durante o verão. Não consigo explicar o porquê, até porque tinha conhecidos em projetos de solidariedade em Cabo Verde e portanto seria muito mais fácil aventurar-me por essas terras.

 

A verdade é que assim que li a história do Centro Laura Vicuña fiquei emocionada com a grandeza do projeto. Não sabia eu o que me estaria à espera, ao chegar e conhecer toda a amplitude da obra da Irmã Lucília percebi que só poderia estar perante de um Milagre, de uma obra de Deus. O trabalho das Irmãs em Inharrime é incrivel, a quantidade de pessoas abraçadas pela sua generosidade e bondade é incalculável. Estas irmãs, que ficaram eternamente guardadas no meu coração, dão-se por inteiro, amam os mais pobres, os sozinhos.

Fui para o Centro com o objetivo de servir, de ajudar naquilo que precisassem e foi isso que aconteceu, fazia coisas muito distintas, basicamente fazia o que era preciso ser feito e que pudesse ser feito por mim. No entanto, as atividades mais rotineiras passavam pela venda do pão na padaria, pelas formações na escola primária e pelo reforço escolar às meninas.

Todos os dias assegurava um horário na padaria, que foi criada com o objetivo de tornar o centro autossustentável, que é, mais uma vez, uma obra arrebatadora. Este projeto permite que as 770 crianças da escola primária possam comer um pão diariamente, o que em algumas poderia ser o seu único alimento diário. Para além disso, a Padaria Pão do Viajante vende pão para revenda, estabelecendo, desta forma, fontes de rendimento para um grande grupo de pessoas. A venda do pão no balcão permitiu com que estabelecesse uma bonita relação com aquele povo acolhedor. Não me esquecerei das duas senhoras que me ofereçam caju e mandioca, este povo é mesmo assim- oferece o que tem porque dar é melhor do que receber. Gostava muito das conversas com os professores das escolas, mostravam-se sempre preocupados com as crianças e com vontade de aprimorar as suas capacidades. Sinto saudades das visitas nos intervalos e no fim das aulas para as longas conversas com as meninas externas da escola secundária, de as ajudar com limites, casos notáveis e equações químicas em cima do balcão de venda. Sinto saudades dos trabalhadores da padaria, das constantes gargalhadas, de como eram prestáveis e incansáveis comigo. Sinto tantas saudades dos serões com as minhas pasteleiras (meninas internas que fazem bolos e gulabos deliciosos), de ajudá-las (ou desajudá-las) nas suas tarefas, das conversas sobre tudo e daqueles corações doces.

Para além disso, fazia formações aos professores e às crianças da escola primária sobre higiene pessoal e suporte básico de vida. As aulas com as crianças eram um encanto, o respeito que têm à figura de professor é exemplar e sentiam-se muito alegres por estarem a aprender. Sentiam-se gratas por estarmos ali para elas, para as ensinarmos.

É impossível estar no centro e não trabalhar no reforço escolar das meninas internas. Aliás, estamos ali bem conscientes de que a educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo. De manhã e de tarde andava constantemente a puxar as pequeninas para estudarem, era uma luta diária para conseguir que ficassem concentradas por 15min, mas vê-las a superar as suas dificuldades era completamente compensatório. Algumas das mais velhas eram muito responsáveis, iam à minha procura com as dúvidas que tinha e existem verdadeiros craques. Sinto que os voluntários têm um papel muito importante no reforço escolar, porque de uma forma mais leve conseguimos acompanhá-las no estudo, perceber quais são as suas maiores dificuldades e tentar ajudá-las a superarem-se a si mesmas.

Para além de tudo isto, não posso deixar de referir todas as brincadeiras, as aulas de chope (acho que nem sequer sei escrever a palavra, portanto imaginem o sucesso que tive), as conversas, as noites de sexta-feira e de sábado a dançar com a Ir. Agnesse como instrutora (que era o melhor da semana), as missas de domingo onde me emocionava sempre, os terços diários e o piri-píri da Ir. Amélia (a primeira irmã que conheci e de quem tenho muitas saudades).

Realmente esta é a terra de boa gente e eu conheci pessoas muito boas. O Sr. Abu e o Ernesto são pessoas que relembro com saudade, pessoas responsáveis, trabalhadoras e dedicadas. A irmãs que me acolheram na sua casa, fazendo-me sentir em casa e em família. A Ir. Lucília que é um ser de luz incrível, uma verdadeira inspiração.

Foi uma das melhores experiências da minha vida e acredito que com ela mudei, a nossa perspetiva do que importa realmente é alterada com aqueles sorrisos puros e gargalhadas contagiantes, com as brincadeiras felizes com terra e uma colher.

Assim que cheguei a Portugal senti que tinha de ajudar mais estas crianças, não podendo apadrinhar todas apadrinhei a Rojércia, uma menina doce, inteligente e que agora (como todas elas) faz parte da minha família.

 

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